Plotino não é um autor fácil de ler; mesmo que seus tratados sejam curtos, o vocabulário sempre muito denso frequentemente resiste a uma apreensão direta ou imediata. Cada um de seus tratados, embora tente responder a uma questão particular, não pode prescindir de todo o sistema plotiniano. É preciso, portanto, muitas vezes, valer-se de conhecimentos externos (comentários ou outros tratados) para compreender integralmente o que Plotino quer dizer.
Esse caráter esotérico dos escritos de Plotino é ainda reforçado pelo uso particular que ele faz da linguagem. Para Plotino, a linguagem não pode dar conta de toda a realidade. O Uno se esquiva de toda afirmação a seu respeito; estando além do ser, além da verdade, é impossível dizer qualquer coisa sobre ele. O Uno é inefável; não se pode atribuir-lhe nenhuma determinação particular. Nisso, Plotino é o pai da teologia apofática, ou teologia negativa. O único discurso possível sobre o Uno é um discurso negativo; não se pode dizer o que o Uno é, pode-se simplesmente tentar se aproximar dele dizendo o que ele não é, ou conseguindo contemplá-lo:
"Que o apreendam, então, tomando nosso voo a partir de nossas palavras: contemplar-se-á, então, embora se seja incapaz de falar como se quer. Mas se se o vê em si mesmo, abandonando todo discurso, sustentar-se-á que ele é por si mesmo o que ele é." — Plotino, Enéadas VI, 8, 39
No entanto, Plotino ousa, por vezes, fazer afirmações fortes a respeito do Uno. Mas é preciso compreender bem que estas têm um estatuto particular. Elas são da ordem da metáfora ("Ele é ao mesmo tempo objeto de amor e ele mesmo amor, ou seja, ele é amor de si") e não têm outra utilidade senão a persuasão. De fato, os tratados de Plotino pretendem ser a transcrição de debates vivos e das trocas ou objeções feitas a ele durante suas aulas e, por isso, o uso da metáfora é necessário para tentar fazer compreender o que é o Uno a um auditório diversificado. Da mesma forma, o discurso mítico vem ainda reforçar o arsenal de Plotino para falar daquilo sobre o que não se pode dizer nada. Plotino entende o mito, não como um relato fabuloso de algum poeta antigo, mas como um discurso com finalidade didática, que permite tornar acessível à razão humana algo que ultrapassa em muito suas capacidades. (M.-N. Bouillet)
VEJA: Enéadas por termos; PLATONISMO